segunda-feira, 1 de março de 2010

O SENTIDO DA HISTÓRIA SALVÍFICA

Gostaria de Partilhar com vocês mais um trecho da meu Trabalho de Conclusão de Curso que teve o tema: Jesus de Nazaré: Transfiguração da História. No trabalho original conservo as repectivas citações, omitidas nesse blog. Espero que ajude na redescoberta do valor da sua História Pessoal....


Moisés pediu a Javé: “Mostra-me a tua glória”.
Javé respondeu: “Farei passar diante de ti toda a minha beleza”
Ex 33,18-19

A História tem início no agir criativo de Deus. Sendo Deus origem do tempo, entra nele fazendo-se, ele mesmo, história. Esse dado expande o conceito Kênosis a que estamos habituados. “Kênosis, com efeito, não é apenas a fragmentação do divino no humano, que a encarnação e a morte exprimem de maneira evidente; kênosis significa também a aceitação da ‘temporalidade’ como categoria necessária para a realização de si”. Sem dúvida é na história que construimos a nossa Identidade.
Deus vem ter conosco e serve-se daquilo que nos é familiar, pois fora dessa realidade não conseguiríamos entendê-lo. Não se revelou unicamente às consciências individuais, mas através de fatos, acontecimentos, ações e palavras, das quais a Bíblia porta o testemunho, revelou progressivamente o seu projeto salvífico. Em sua bondade e sabedoria, aprouve-lhe revelar ao gênero humano a si mesmo e tornar conhecido o mistério de Sua vontade pela via sobrenatural (cf. Ef 1,9). Desta forma podemos afirmar que a “história é a palavra através da qual Deus se pronuncia, embora sem esgotar-se nela”. Ela é lugar da auto-apresentação de Deus, unida à decisão do ser humano de querer segui-lo ou não.
O ser humano, livre, responsável e “imagem e semelhança de Deus” (cf. Gn 1,26) produz, pela sua presença no tempo, história. Esta, como disse acima, é lugar para a revelação divina. Desse modo, não há história profana. Toda a história do mundo é a história de Deus com o mesmo e assim sendo, história de salvação. Isso nos permite afirmar que há uma “auto-revelação indireta de Deus no espelho de sua ação na história (...) os fatos históricos, como feitos de Deus, atiram uma luz sobre o próprio Deus e nos comunicam indiretamente algo sobre o próprio Deus”.
A história é então, o cenário natural sobre o qual se coloca o evento da Revelação. Portanto, a História Sagrada é simultaneamente divina e humana. “Deus nos ama por primeiro” (cf. 1Jo 4,10) e se dirige a nós. “Cabe então, responder ao dom do amor com que Deus vem a nosso encontro, não como um ‘mandamento’, mas como uma resposta de amor”. Na história da salvação Deus quer revelar esse amor, Deus quer se revelar, pois “Deus é amor” (cf. 1Jo 4,10). Assim, é “no terreno da história que Deus quis estabelecer com Israel uma aliança e, desse modo, preparar o nascimento do Filho no ventre de Maria, ‘na plenitude dos tempos’ (Gl 4,4)”. A eleição e aliança com Israel conduzem a Jesus Cristo. Ele manifesta o mistério de Deus (cf. Jo 1,1-18), cuja vida trinitária é a fonte de uma total comunicação de amor em si mesmo e para conosco. Assim, em nossa história, Deus narra a sua História. Em eventos e palavras relacionados entre si, Deus se revela em seu mistério. Podemos dizer então: “A Trindade na história manifesta a Trindade na glória”.
A revelação de Deus, “comporta uma ‘pedagogia divina’ peculiar: Deus comunica-se gradualmente ao ser humano, prepara-o por etapas a acolher a Revelação sobrenatural que faz de si mesmo e que vai culminar na Pessoa e na missão do Verbo encarnado, Jesus Cristo”. Nele todas as promessas de Deus encontram o seu sim (cf. 2Cor 1,20). Ele é o cumprimento de toda a história (cf. Lc 24,27). Portanto, a economia cristã, como nova e definitiva aliança, jamais passará, e não se há de esperar nenhuma outra Revelação pública antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1Tm 6,14; Tt 2,13).
As promessas de Deus não somente permanecem como verdade e recordação, mas como dinamismo operante, de modo que em todo tempo e lugar em que alguém aceita a Aliança, um momento novo, único, da história da salvação é vivido. A história, marcada pela transitoriedade pede sentido e significado. Pede realização e promessa. É por esse motivo que “em Cristo”, “por Cristo” e “com Cristo”, temos o “transfigurar da História”. Ele é a chave hermenêutica de interpretação de toda a história. Ele é realização da promessa e ao mesmo tempo nova promessa. Centro de toda a história, o evento salvífico da morte e ressurreição de Jesus de Nazaré, nos coloca na realização da promessa escatológica. Por esse motivo, o relato da Transfiguração de Jesus de Nazaré – que se constitui a linha mestra dessa síntese – antecipa aos apóstolos Pedro, Tiago e João a glória a ser manifestada a todos. Mas longe de ser mérito pessoal dos apóstolos, a Transfiguração se constitui um esperar contra toda desesperança. Nela, por mais envolta em dor que a história possa aparecer, os discípulos de Jesus de Nazaré podem “dar razão da vossa esperança a todos aqueles que vo-la pede” (1Pd 3,15). Assim, “o Crucificado-Ressuscitado é o centro não simplesmente cronológico, mas também escatológico do tempo”. Cruz-Glória, antecipadas por Deus na Transfiguração de Jesus é um referencial para a leitura da história humana como História da Salvação. Não caindo pronta do céu, ditada e redigida de tal maneira que os seus seguidores só a podem ler e aplicar, a Revelação divina está presente em todas as épocas bíblicas, escondidas nos caminhos tortuosos e aparentemente caóticos dos acontecimentos históricos. Enfim, “a Revelação divina não é verdade de uma pessoa, mas verdade de três pessoas. Ela aprofunda suas raízes na comunhão de vida das três pessoas e traduz esta comunhão”.

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